A partir da segunda metade do século XIX os países mais desenvolvidos da Europa, sobretudo a Inglaterra e a França, onde a revolução industrial estava perfeitamente instalada e consolidada, reformara os principais conceitos estéticos do romantismo e deu-se início a uma nova vaga de vanguardas nas mais diversas áreas: desde a pintura à arquitetura, passando pela escultura. A arquitetura do ferro, consequência direta do acelerado desenvolvimento industrial, destacou-se pelo impacto que teve nas sociedades europeias, tanto ao nível estético como ao nível económico. 

Apenas as políticas ou trabalhos restauracionistas de John Ruskin incrementaram, nestes países desenvolvidos, obras que não estavam diretamente relacionadas com as novas vanguardas, não obstante, contribuíram, também, para o seu desenvolvimento. A defesa do modo gótico por este intelectual começou por influenciar a arquitetura de Inglaterra e França e consequentemente de vários outros países da Europa, incluindo Portugal, ainda que numa fase mais tardia.

Apesar de longe das vanguardas das grandes capitais europeias, Sintra permanece um verdadeiro paraíso romântico para viajantes e ricos homens de grandes fortunas. As novas vanguardas nem sempre são adotadas pelos capitalistas, seja por falta de conhecimento ou por aversão às novas tendências que, inicialmente, causam dúvidas nos mais céticos ou nos menos conhecedores da realidade contemporânea.

Manuel Pinto da Fonseca - ou Conde de Monte Cristo, como era apelidado - foi um desses casos. Emigrado no Brasil durante boa parte da sua vida, regressou a Lisboa na década de 50 com uma enorme fortuna acumulada, graças ao tráfico de escravos. O facto de ter feito fortuna à custa do tráfico de seres humanos, valeu-lhe o ódio, e outros sentimentos semelhantes, por parte de muitos nobres da corte e, até mesmo, do rei D. Pedro V. Talvez por isso, tentasse impor-se através de sinais exteriores de riqueza. Depois de regressar do Brasil, adquiriu a propriedade fronteira à Quinta da Regaleira, segundo se pensa, aos marqueses de Borba para aí construir a sua residência.

É de salientar que, no século XIX, a nobreza arruinada perde, muito do seu poder de compra o que, em muitos casos, obrigou grandes proprietários a desfazer-se de boa parte das suas propriedades e a entregá-las nas mãos da burguesia. É, portanto, desta forma que algumas dos palácios ou residências de veraneio chegaram às mãos da burguesia endinheirada, por vezes na mais completa das ruínas. As novas estruturas não estão mais ligadas à agricultura ou à caça, mas sim ao ócio, ao jogo ou a outras diversões. Os pavilhões são transformados em confortáveis casas de campo para usufruto dos seus proprietários.

A Quinta do Relógio remonta, contudo, ao século XVIII. Sabe-se que a propriedade no termo de Sintra, na freguesia de São Martinho, foi propriedade de um padre hieronimita que a legou ao 15.º Conde do Redondo, D. José de Sousa Coutinho (1789-1863). Mais tarde, o milionário B. H. Metznar adquiriu a propriedade e construiu ali a primeira estrutura arquitetónica, ostentando uma torre provida de relógio, o que, obviamente, se encontra na origem da designação da propriedade – Quinta do Relógio. Mais tarde, a propriedade foi vendida ao banqueiro Thomas Horn e, finalmente na década de 50 do século XIX, como já acima referimos, foi adquirida por Manuel Pinto da Fonseca.

Sintra era, por excelência, o local de veraneio da nobreza e da alta burguesia. O ambiente aristocrático que ali se vivia era bem diferente daquele que se vivia na costa de Cascais e do Estoril. As relações eram, aqui, muito mais próximas e consumadas de casa em casa, seja em festas, jogos, chás, ou em outras atividades de carácter coletivo. Era um local perfeito para Manuel Fonseca chegar perto da alta aristocracia. Assim, para projetar o seu novo palácio convidou o famoso arquiteto e pintor António Tomás da Fonseca (1822/3-1894), filho do académico mestre Fonseca e recém-chegado do estrangeiro onde terminara os seus estudos.

O espírito romântico que se vivia em Sintra inspirou o novo proprietário que encomendou ao arquiteto uma obra em estilo arabizante, seguindo os exemplos do Palácio da Pena e do Palácio de Monserrate. O novo palácio é constituído por um pavilhão central, mais elevado, de topo ameado e coruchéus pétreos trabalhados. Ao centro, surgem lanças ornamentadas com crescentes lunares. A ladear o pavilhão central, encontramos dois corpos menores que têm, na parte superior, varandins em ferro forjado apoiados em balaústres de pedra. O alçado central é decorado com bandas horizontais avermelhadas bastante utilizadas, sobretudo, em França e na Alemanha na segunda metade do século XIX.

Este tipo de policromia decorativa normalmente alternava bandas horizontais avermelhadas cor de tijolo com outras de ocre claro, o que, no caso da Quinta do Relógio, conferia ao edifício um efeito estético diferente das restantes construções existentes na zona até àquele momento. Esta opção estética terá sido inspirada na “Vila Wilhelma”, projetada por Ludwig von Zanth, por volta dos anos quarenta, para Guilherme I de Wurtemberg, nos arredores de Stuttgard, e que Tomás da Fonseca terá visto aquando da sua estadia na Alemanha.

O alçado principal destaca sete janelas sobrepujadas por arcos em forma de ferradura. No interior do vestíbulo podemos observar três janelas, cujos arcos apresentam um programa decorativo geométrico, encimadas por três cartelas azuis com a divisa árabe dos reis de Granada – “Deus é o único vencedor”. Ainda, por cima destas legendas, é de destacar três óculos circulares de moldura polilobada. O próprio vestíbulo apresenta-se elegantemente apoiado em duas finas colunas coroadas com capitéis decorados com elementos fitomórficos.

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